Li hoje a seguinte passagem:
A veste de um homem, seu sorriso e seu andar revelam o que ele é.
(Eclesiates 19,30)
Logo penso, Deus quis me despir na marra, pois sorrir já era dificil, e agora com toda essa desgraça na minha vida, fudeu. Pois além de não gostar, não ter motivos para sorrir, agora meu andar é manco, capengo, estranho, esquisito e - adoro essa - engraçado.
Portanto, pergunto: Quem sou eu?
Mas tentarei fazer o caminho inverso, ou o mesmo caminho, sei lá. Consertarei a moto, e passarei no local do acidente todos os domingos as 2 horas da tarde (dia e hora do acidente), quem sabe não encontro o mesmo carro, fazendo a mesma manobra e consiga voar novamente, e melhor, quem sabe ao concluir o vôo não esteja curado, sanado, melhorado, otimizado, desmetalizado, abiscoitado, quem sabe até catequizado, canonizado e por fim: morto.
sexta-feira, 12 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Coletivo e Involuntário
Vida de aleijado não é mole não, mas confesso que uma das coisas que mais sinto falta desde o acidente, não é a firmeza nas pernas, poder saltitar como uma gazela enlouquecida num bosque verde e fictício, daqueles que só tem em filmes de sessão da tarde e nem é dançar o rebolation tion, e sim, ter a liberdade de ir e vir com minha moto (a viúva negra) para onde quiser, sem ser obrigado a participar de um sarro coletivo dentro de um ônibus (para os mais jovens, sarro, neste contexto, é quando duas pessoas esfregam seus corpos, mas precisamente "aquelas" partes), digo mais, coletivo e involuntário (para a maioria pelo menos).
Aproveito e relato como são meus dias dentro de um coletivo.
Para se ter uma idéia, tenho que acordar uma hora e meia mais cedo para não chegar atrasado no trabalho, e mesmo assim as vezes ainda chego. Tomo banho e preparo o café, que só tomarei no trabalho, assim ganho tempo. Vou para o ponto de ônibus esperar o bendito, que demora aproximadamente 30 minutos para chegar, não importa a hora que eu chegue no ponto, sempre espero 30 minutos, parece até que ele fica parado na esquina esperando passar 30 minutos para aparecer.
Quando chega que olho pra janela, não consigo ver nem o outro lado, não passa nem um raio de sol, mas sou obrigado a entrar nele, pois n posso esperar mais 30 minutos (e quando espero, parece q é o mesmo ônibus que faz a volta e vai pra esquina esperar o tempo passar). Com muito esforço consigo chegar no miolo, no meio, no centro das atividades sísmicas do ônibus. Onde além do rala-rala, esfrega-esfrega (parece música sertaneja), acontece as mais absurdas bizarrices do mundo, como fecundação, furto, brigas, fofocas (adoro as fofocas), assassinato, paquera, comércio informal, sessões espíritas e do descarrego, serestas (graças aos celulares com MP3), etc.
As vezes acontece tudo ao mesmo tempo e geralmente todos participam, não importa sua vontade, lá você participa de todo jeito. Como poucos percebem que sou portador de necessidades especiais e os que percebem não se importam, neste momento o objetivo é achar um lugar onde consiga pisar no chão com a totalidade dos meus pés e uma vaguinha na barra de ferro para minhas mãos, assim garanto minha segurança quando começar o "Bus-rally" ou a "Formula Bus", pois realmente é o que parece as vezes, os motoristas sem noção dirigem como se estivéssemos no parque de diversões.
Quando penso que as coisas não podem piorar, pois já estou atrasado, levando cotovelada e bolsada sempre que alguém passa, transpirando naquele abafado e malhando para me manter no mesmo lugar. Sempre aparece alguém muito fedorento e pára a meu lado, pior, levanta os braços e acaricia meu rosto com seus pelos “axiliais”. Deus, como alguém pode está fedendo às 6 horas da manhã?
De repente me vejo todo amassado, suando, levando escorões, respirando com dificuldades pela falta de ar e pela pressão na caixa torácica pelo amontoado de gente e agora tendo uma overdose de odores desagradáveis, não aguento e começo a passar mal, enjoar, calafrios.
Nesta hora começa uma ânsia de vômito, sintomas de diarréia, me encontro numa situação delicada e sem muito tempo para pensar, decido aliviar um pouco a pressão, soltando uma singela bufa, fico na pontinha dos pés, seguro com mais firmeza a barra, olho em direção ao sol para justificar a careta e faço força... pronto, foi.
Alívio imediato, sensação de realização total, feliz embora ainda esteja ali. Depois que a sensação de alívio passa, começo a sentir novamente a realidade, e percebo uma nova sensação, como se uma gotícula de suor estivesse escorrendo pelas minhas pernas, danço uma gafieira na tentativa louca de esmagar aquela gota entre as pernas, pois é agonizante sentir aquilo fazendo rapel na sua coxa, mas depois de duas músicas, consigo.
Passado 50 minutos, chego ao meu destino. Vou para o banheiro tentar me recompor, pois além de está amassado, molhado de suor, exalando uma catinga que não me pertence e com as pernas molhadas de suor, descubro que o que escorreu pelas pernas não foi suor, eu defequei.
Sem condições de trabalhar daquele jeito, volto para o ponto de ônibus e imaginem... lá está o mesmo ônibus parado na esquina, esperando os 30 minutos...
Aproveito e relato como são meus dias dentro de um coletivo.
Para se ter uma idéia, tenho que acordar uma hora e meia mais cedo para não chegar atrasado no trabalho, e mesmo assim as vezes ainda chego. Tomo banho e preparo o café, que só tomarei no trabalho, assim ganho tempo. Vou para o ponto de ônibus esperar o bendito, que demora aproximadamente 30 minutos para chegar, não importa a hora que eu chegue no ponto, sempre espero 30 minutos, parece até que ele fica parado na esquina esperando passar 30 minutos para aparecer.
Quando chega que olho pra janela, não consigo ver nem o outro lado, não passa nem um raio de sol, mas sou obrigado a entrar nele, pois n posso esperar mais 30 minutos (e quando espero, parece q é o mesmo ônibus que faz a volta e vai pra esquina esperar o tempo passar). Com muito esforço consigo chegar no miolo, no meio, no centro das atividades sísmicas do ônibus. Onde além do rala-rala, esfrega-esfrega (parece música sertaneja), acontece as mais absurdas bizarrices do mundo, como fecundação, furto, brigas, fofocas (adoro as fofocas), assassinato, paquera, comércio informal, sessões espíritas e do descarrego, serestas (graças aos celulares com MP3), etc.
As vezes acontece tudo ao mesmo tempo e geralmente todos participam, não importa sua vontade, lá você participa de todo jeito. Como poucos percebem que sou portador de necessidades especiais e os que percebem não se importam, neste momento o objetivo é achar um lugar onde consiga pisar no chão com a totalidade dos meus pés e uma vaguinha na barra de ferro para minhas mãos, assim garanto minha segurança quando começar o "Bus-rally" ou a "Formula Bus", pois realmente é o que parece as vezes, os motoristas sem noção dirigem como se estivéssemos no parque de diversões.
Quando penso que as coisas não podem piorar, pois já estou atrasado, levando cotovelada e bolsada sempre que alguém passa, transpirando naquele abafado e malhando para me manter no mesmo lugar. Sempre aparece alguém muito fedorento e pára a meu lado, pior, levanta os braços e acaricia meu rosto com seus pelos “axiliais”. Deus, como alguém pode está fedendo às 6 horas da manhã?
De repente me vejo todo amassado, suando, levando escorões, respirando com dificuldades pela falta de ar e pela pressão na caixa torácica pelo amontoado de gente e agora tendo uma overdose de odores desagradáveis, não aguento e começo a passar mal, enjoar, calafrios.
Nesta hora começa uma ânsia de vômito, sintomas de diarréia, me encontro numa situação delicada e sem muito tempo para pensar, decido aliviar um pouco a pressão, soltando uma singela bufa, fico na pontinha dos pés, seguro com mais firmeza a barra, olho em direção ao sol para justificar a careta e faço força... pronto, foi.
Alívio imediato, sensação de realização total, feliz embora ainda esteja ali. Depois que a sensação de alívio passa, começo a sentir novamente a realidade, e percebo uma nova sensação, como se uma gotícula de suor estivesse escorrendo pelas minhas pernas, danço uma gafieira na tentativa louca de esmagar aquela gota entre as pernas, pois é agonizante sentir aquilo fazendo rapel na sua coxa, mas depois de duas músicas, consigo.
Passado 50 minutos, chego ao meu destino. Vou para o banheiro tentar me recompor, pois além de está amassado, molhado de suor, exalando uma catinga que não me pertence e com as pernas molhadas de suor, descubro que o que escorreu pelas pernas não foi suor, eu defequei.
Sem condições de trabalhar daquele jeito, volto para o ponto de ônibus e imaginem... lá está o mesmo ônibus parado na esquina, esperando os 30 minutos...
terça-feira, 2 de março de 2010
Deficiência Comportamental
Sofri um acidente que me deixou "paralítico" por 2 meses, cadeirante por quase um mês e andando de muletas por 25 dias. Hoje consigo andar sozinho e se me esforçar bastante ninguém percebe minhas limitações, pelo menos nos primeiros 20 minutos. Mas graças a Deus, a mim ou a Renato Russo (Cada um escolhe um desses para acreditar), consigo ter quase uma vida normal.
O engraçado é que comecei a perceber que apesar da significativa melhora, estou cada dia mais deficiente, não físico ou mental, mas comportamental. Estou Levando uma vida inerente à própria solidão, me fantasiando de gente para me misturar ao grupo, mas visto por dentro uma carapuça sombria e esquisita, que traz a tristeza, o rancor e a morbidez como sentimentos primários.
Hoje, sou mais do que nunca um portador de necessidades especiais, e das necessidades mais especiais do mundo, a alegria, a felicidade, o amor. Necessidades que vão além das limitações do homem, andar, falar, ouvir, são limitações pequeninas quando se tem a chama de viver dentro de si, mas o que tenho não passa de uma fagulha, algo tão singelo que as vezes nem sei se existe e desisto. Mas logo vem um sopro e me faz lembrar como foi bom o que eu nunca vivi, mas imaginei que vivi.
Não é difícil transformar essa faísca em algo mais fogoso, basta me tratar da deficiência comportamental, valorizando as pessoas que gosto e, sobretudo, satisfazendo meus desejos sinceros e imparciais, que só trarão o bem para o meio em que vivo e especialmente para mim.
Essa parte é fácil, basta eu imaginar o que me deixaria alegre, feliz, seja fazendo alguns cursos, listo: Libras, Teatro, Idiomas, Artes Plásticas, Música. Seja fazendo coisas triviais, mas que tem sua parcela de satisfação, como: cinema, jogos de tabuleiro com os amigos, passeio na praia, zoológico, etc. O melhor é que todas as opções de tratamento para essa deficiência são factíveis, acessíveis, salutares e na sua maioria podem ser realizadas em grupo, o que é melhor, pois como dizia o poeta "Rauzito", sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade.
Claro que tudo fica mais fácil na teoria, e que como todo tratamento, é preciso que o enfermo aceite e se dedique, mas acho que estou indo bem, pois ao escrever toda essa baboseira, precisei reconhecer que estou doente e que a cura está primeiramente dentro de mim, e que se do poço eu só conheço o fundo, é porque nunca olhei para cima, é porque nunca estiquei o braço e busquei um amparo para sair de lá.
O engraçado é que comecei a perceber que apesar da significativa melhora, estou cada dia mais deficiente, não físico ou mental, mas comportamental. Estou Levando uma vida inerente à própria solidão, me fantasiando de gente para me misturar ao grupo, mas visto por dentro uma carapuça sombria e esquisita, que traz a tristeza, o rancor e a morbidez como sentimentos primários.
Hoje, sou mais do que nunca um portador de necessidades especiais, e das necessidades mais especiais do mundo, a alegria, a felicidade, o amor. Necessidades que vão além das limitações do homem, andar, falar, ouvir, são limitações pequeninas quando se tem a chama de viver dentro de si, mas o que tenho não passa de uma fagulha, algo tão singelo que as vezes nem sei se existe e desisto. Mas logo vem um sopro e me faz lembrar como foi bom o que eu nunca vivi, mas imaginei que vivi.
Não é difícil transformar essa faísca em algo mais fogoso, basta me tratar da deficiência comportamental, valorizando as pessoas que gosto e, sobretudo, satisfazendo meus desejos sinceros e imparciais, que só trarão o bem para o meio em que vivo e especialmente para mim.
Essa parte é fácil, basta eu imaginar o que me deixaria alegre, feliz, seja fazendo alguns cursos, listo: Libras, Teatro, Idiomas, Artes Plásticas, Música. Seja fazendo coisas triviais, mas que tem sua parcela de satisfação, como: cinema, jogos de tabuleiro com os amigos, passeio na praia, zoológico, etc. O melhor é que todas as opções de tratamento para essa deficiência são factíveis, acessíveis, salutares e na sua maioria podem ser realizadas em grupo, o que é melhor, pois como dizia o poeta "Rauzito", sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade.
Claro que tudo fica mais fácil na teoria, e que como todo tratamento, é preciso que o enfermo aceite e se dedique, mas acho que estou indo bem, pois ao escrever toda essa baboseira, precisei reconhecer que estou doente e que a cura está primeiramente dentro de mim, e que se do poço eu só conheço o fundo, é porque nunca olhei para cima, é porque nunca estiquei o braço e busquei um amparo para sair de lá.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Sim, eu sou um PNE (Alguma dúvida?)

Alguns ainda teimam comigo, pois então segue a prova.
Segundo o artigo 3º do Decreto 3298 de dezembro de 1999, o qual regulamenta a lei 7853/1989, considera-se deficiência a perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade dentro do padrão considerado normal para o ser humano. A deficiência permanente é aquela que não permite recuperação ou alteração apesar do aparecimento de novos tratamentos, por já ter corrido tempo suficiente para a sua consolidação.
O artigo 4º do referido decreto enumera 5 categorias para portadores de deficiências, eu me enquadro na:
Deficiente físico: é o portador de alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física.
Alguma dúvida?
sábado, 26 de dezembro de 2009
Boas festas
Recebi centenas de e-mails de pessoas curiosas que pedem desesperadamente para que eu mostre minha cara. Então aproveitei as festas para gravar (de forma capenga) este vídeo, onde mostro minha face macia e peluda e desejo boas festas e blá, blá, blá.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Eu não sei de nada
Preciso confessar algo que está me acontecendo desde o acidente, mas prometam que não contarão a ninguém, pois é algo sinistro e bastante perigoso.
Há algum tempo tenho sofrido sessões de torturas, ainda não sei o responsável, mas nada que eu diga o faz parar, são insaciáveis pela dor, gemidos, caretas e suplícios. Começou com sessões leves, apenas 20 minutos de choque elétrico e algumas agulhas nas pernas, mas começaram a aumentar a dose para 1 hora e 20 minutos de vários tipos de torturas que nem nos meus sonhos mais horrendos pude imaginar tal atrocidade. Além de malvados são sarcásticos, pois sempre que terminam perguntam se estou gostando, se quero mais.
Até hoje não descobri o que querem de mim, mas confesso que sempre fui um pouco adepto a dor, principalmente a voluntária, uma espécie de alto punição pelos erros que cometemos durante a vida, pena que dentre os exercícios e aparelhos não há nada que provoque a dor até não mais sentir dor.
Tá bom, essa não teve graça, estou falando da fisioterapia, que de fato é muito dolorosa, mas é bastante importante.
Há algum tempo tenho sofrido sessões de torturas, ainda não sei o responsável, mas nada que eu diga o faz parar, são insaciáveis pela dor, gemidos, caretas e suplícios. Começou com sessões leves, apenas 20 minutos de choque elétrico e algumas agulhas nas pernas, mas começaram a aumentar a dose para 1 hora e 20 minutos de vários tipos de torturas que nem nos meus sonhos mais horrendos pude imaginar tal atrocidade. Além de malvados são sarcásticos, pois sempre que terminam perguntam se estou gostando, se quero mais.
Até hoje não descobri o que querem de mim, mas confesso que sempre fui um pouco adepto a dor, principalmente a voluntária, uma espécie de alto punição pelos erros que cometemos durante a vida, pena que dentre os exercícios e aparelhos não há nada que provoque a dor até não mais sentir dor.
Tá bom, essa não teve graça, estou falando da fisioterapia, que de fato é muito dolorosa, mas é bastante importante.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Insônia
Insônia que perturba a alma e invade os mais delicados sentimentos, tornando-os pontiagudos, ferreis e lesivos. Que estilhaça as boas lembranças, rasgando a carne a cada recordação de amor, amizade e juventude.
Insônia que palpita os músculos com tanta voracidade, que deixa exausto e dolorido todo o corpo. Que invade os repentinos desejos, amaldiçoando-os com a aflição de realizá-los a custa da dor e da escuridão.
Insônia alucinógena que torna visível todos os demônios conhecidos e os faz passear sobre as paredes, como se esperassem a melhor hora para atacar e de nada adianta fechar os olhos, pois seria a oportunidade perfeita para uma aproximação brusca, ao ponto de se sentir o calor e a respiração de sua presença.
Insônia que omite todas as coisas boas que já vivera, fazendo de qualquer vida pacata uma verdadeira via-crúcis, que nada conquistou além do tormento de ter feito tudo errado e o martírio de continuar no erro.
Insônia que encoraja a própria morte num primeiro instante, mas adia o ato para massacrar o que resta com covardia e incertezas de uma vida sem valor, onde o mundo é credor de um espírito vil, penhorado em troca de amargura.
Insônia que afaga o rosto com ferro quente, mas não permite um gemido de dor. Que perfura por vezes o mesmo lugar até o corpo se acostumar com o encaixe da lâmina na carne, pra depois lavar com Iodo e sódio.
Insônia que mata aos poucos, até que bem pouco fique, um fragmento, um pó de vida, uma raspa dela, apenas para que possa tentar dormir e esperar a insônia chegar.
Insônia que palpita os músculos com tanta voracidade, que deixa exausto e dolorido todo o corpo. Que invade os repentinos desejos, amaldiçoando-os com a aflição de realizá-los a custa da dor e da escuridão.
Insônia alucinógena que torna visível todos os demônios conhecidos e os faz passear sobre as paredes, como se esperassem a melhor hora para atacar e de nada adianta fechar os olhos, pois seria a oportunidade perfeita para uma aproximação brusca, ao ponto de se sentir o calor e a respiração de sua presença.
Insônia que omite todas as coisas boas que já vivera, fazendo de qualquer vida pacata uma verdadeira via-crúcis, que nada conquistou além do tormento de ter feito tudo errado e o martírio de continuar no erro.
Insônia que encoraja a própria morte num primeiro instante, mas adia o ato para massacrar o que resta com covardia e incertezas de uma vida sem valor, onde o mundo é credor de um espírito vil, penhorado em troca de amargura.
Insônia que afaga o rosto com ferro quente, mas não permite um gemido de dor. Que perfura por vezes o mesmo lugar até o corpo se acostumar com o encaixe da lâmina na carne, pra depois lavar com Iodo e sódio.
Insônia que mata aos poucos, até que bem pouco fique, um fragmento, um pó de vida, uma raspa dela, apenas para que possa tentar dormir e esperar a insônia chegar.
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