sexta-feira, 5 de março de 2010

Coletivo e Involuntário

Vida de aleijado não é mole não, mas confesso que uma das coisas que mais sinto falta desde o acidente, não é a firmeza nas pernas, poder saltitar como uma gazela enlouquecida num bosque verde e fictício, daqueles que só tem em filmes de sessão da tarde e nem é dançar o rebolation tion, e sim, ter a liberdade de ir e vir com minha moto (a viúva negra) para onde quiser, sem ser obrigado a participar de um sarro coletivo dentro de um ônibus (para os mais jovens, sarro, neste contexto, é quando duas pessoas esfregam seus corpos, mas precisamente "aquelas" partes), digo mais, coletivo e involuntário (para a maioria pelo menos).

Aproveito e relato como são meus dias dentro de um coletivo.

Para se ter uma idéia, tenho que acordar uma hora e meia mais cedo para não chegar atrasado no trabalho, e mesmo assim as vezes ainda chego. Tomo banho e preparo o café, que só tomarei no trabalho, assim ganho tempo. Vou para o ponto de ônibus esperar o bendito, que demora aproximadamente 30 minutos para chegar, não importa a hora que eu chegue no ponto, sempre espero 30 minutos, parece até que ele fica parado na esquina esperando passar 30 minutos para aparecer.

Quando chega que olho pra janela, não consigo ver nem o outro lado, não passa nem um raio de sol, mas sou obrigado a entrar nele, pois n posso esperar mais 30 minutos (e quando espero, parece q é o mesmo ônibus que faz a volta e vai pra esquina esperar o tempo passar). Com muito esforço consigo chegar no miolo, no meio, no centro das atividades sísmicas do ônibus. Onde além do rala-rala, esfrega-esfrega (parece música sertaneja), acontece as mais absurdas bizarrices do mundo, como fecundação, furto, brigas, fofocas (adoro as fofocas), assassinato, paquera, comércio informal, sessões espíritas e do descarrego, serestas (graças aos celulares com MP3), etc.

As vezes acontece tudo ao mesmo tempo e geralmente todos participam, não importa sua vontade, lá você participa de todo jeito. Como poucos percebem que sou portador de necessidades especiais e os que percebem não se importam, neste momento o objetivo é achar um lugar onde consiga pisar no chão com a totalidade dos meus pés e uma vaguinha na barra de ferro para minhas mãos, assim garanto minha segurança quando começar o "Bus-rally" ou a "Formula Bus", pois realmente é o que parece as vezes, os motoristas sem noção dirigem como se estivéssemos no parque de diversões.

Quando penso que as coisas não podem piorar, pois já estou atrasado, levando cotovelada e bolsada sempre que alguém passa, transpirando naquele abafado e malhando para me manter no mesmo lugar. Sempre aparece alguém muito fedorento e pára a meu lado, pior, levanta os braços e acaricia meu rosto com seus pelos “axiliais”. Deus, como alguém pode está fedendo às 6 horas da manhã?
De repente me vejo todo amassado, suando, levando escorões, respirando com dificuldades pela falta de ar e pela pressão na caixa torácica pelo amontoado de gente e agora tendo uma overdose de odores desagradáveis, não aguento e começo a passar mal, enjoar, calafrios.

Nesta hora começa uma ânsia de vômito, sintomas de diarréia, me encontro numa situação delicada e sem muito tempo para pensar, decido aliviar um pouco a pressão, soltando uma singela bufa, fico na pontinha dos pés, seguro com mais firmeza a barra, olho em direção ao sol para justificar a careta e faço força... pronto, foi.
Alívio imediato, sensação de realização total, feliz embora ainda esteja ali. Depois que a sensação de alívio passa, começo a sentir novamente a realidade, e percebo uma nova sensação, como se uma gotícula de suor estivesse escorrendo pelas minhas pernas, danço uma gafieira na tentativa louca de esmagar aquela gota entre as pernas, pois é agonizante sentir aquilo fazendo rapel na sua coxa, mas depois de duas músicas, consigo.

Passado 50 minutos, chego ao meu destino. Vou para o banheiro tentar me recompor, pois além de está amassado, molhado de suor, exalando uma catinga que não me pertence e com as pernas molhadas de suor, descubro que o que escorreu pelas pernas não foi suor, eu defequei.

Sem condições de trabalhar daquele jeito, volto para o ponto de ônibus e imaginem... lá está o mesmo ônibus parado na esquina, esperando os 30 minutos...

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